A História completa da Aspirina

Poucos medicamentos marcaram tanto a história da medicina quanto a aspirina. Presente em quase todos os armários de remédio do planeta, o ácido acetilsalicílico percorreu um caminho de mais de dois mil anos até se tornar o fármaco sintético mais consumido da história — e, ainda hoje, continua revelando novas propriedades que surpreendem cientistas.

As raízes antigas: o poder do salgueiro

A história da aspirina começa muito antes de qualquer laboratório existir. Papiros egípcios datados de cerca de 1550 a.C., como o Papiro de Ebers, já registravam o uso de folhas de mirto e derivados do salgueiro para aliviar dores e inflamações. Na Grécia Antiga, por volta do século V a.C., Hipócrates — considerado o pai da medicina — recomendava um pó extraído da casca e das folhas do salgueiro para tratar febres e dores, além de ser indicado a mulheres durante o parto.

Ao longo dos séculos, diferentes culturas — sumérios, chineses e povos nativos americanos — utilizaram plantas ricas em salicilatos, como o salgueiro (Salix) e a ulmária (Filipendula ulmaria), para tratar dores, febres e inflamações. O princípio ativo por trás desses efeitos, porém, permaneceria um mistério químico por milênios.

O século XIX: isolando o composto ativo

O salto científico começou em 1763, quando o reverendo inglês Edward Stone apresentou à Royal Society um estudo sistemático sobre o uso da casca do salgueiro no tratamento de febres, dando início a uma investigação mais rigorosa sobre a planta.

Já no século XIX, químicos europeus passaram a isolar e purificar o composto responsável pelos efeitos terapêuticos:

  • Em 1828, o farmacêutico francês Henri Leroux e o químico italiano Raffaele Piria conseguiram isolar a salicina, substância amarga extraída da casca do salgueiro.
  • Piria, em 1838, transformou a salicina em ácido salicílico, forma mais potente e ativa do composto.
  • Paralelamente, o ácido salicílico também foi identificado em outra planta, a ulmária, o que décadas depois inspiraria o nome comercial “aspirina” (do latim Spiraea, gênero botânico da ulmária).

O problema era que o ácido salicílico puro, embora eficaz contra dores e febres, causava sérios efeitos colaterais — principalmente irritação severa do estômago e do esôfago, tornando seu uso prolongado bastante desagradável.

Felix Hoffmann e o nascimento da aspirina (1897)

A solução para esse problema veio da indústria química alemã. Em 1897, o químico Felix Hoffmann, funcionário da empresa Bayer, sintetizou uma versão quimicamente estável e mais tolerável do ácido salicílico: o ácido acetilsalicílico.

Segundo a versão mais difundida da história, Hoffmann teria sido motivado por razões pessoais — seu pai sofria de reumatismo e não suportava os efeitos colaterais do ácido salicílico convencional. Ao acetilar a molécula, Hoffmann conseguiu reduzir significativamente a irritação gástrica, mantendo as propriedades analgésicas, antitérmicas e anti-inflamatórias do composto original.

A controvérsia com Arthur Eichengrün

Nas últimas décadas, historiadores da ciência têm questionado essa narrativa tradicional. Documentos e relatos sugerem que o verdadeiro responsável pela síntese e por reconhecer o potencial terapêutico do composto teria sido Arthur Eichengrün, químico judeu e supervisor de Hoffmann na Bayer. Segundo essa versão, Eichengrün teria sido apagado da história oficial durante o período nazista, quando cientistas judeus foram sistematicamente excluídos dos registros de conquistas alemãs. A Bayer, no entanto, contesta essa versão e mantém Hoffmann como o sintetizador reconhecido. O debate historiográfico permanece em aberto até hoje.

O batismo e o lançamento comercial

A Bayer registrou o nome “Aspirin” em 1899, combinando o prefixo “A” (de acetil), “spir” (de Spiraea, planta da qual também se extrai o ácido salicílico) e o sufixo “in”, comum em nomes de fármacos da época.

O lançamento foi um sucesso comercial imediato. Inicialmente vendida em pó para farmacêuticos, a aspirina passou a ser comercializada em comprimidos a partir de 1915 — sem necessidade de prescrição médica em muitos países, o que impulsionou ainda mais sua popularização mundial.

A Primeira Guerra Mundial e a perda da patente

O destino comercial da aspirina foi diretamente afetado por eventos geopolíticos. Após a Primeira Guerra Mundial, como parte das reparações impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes (1919), a Bayer perdeu os direitos de marca registrada sobre “Aspirin” em diversos países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, França e Rússia. O nome tornou-se genérico nesses mercados, permitindo que outras empresas farmacêuticas passassem a fabricar e vender o medicamento livremente — o que consolidou definitivamente a aspirina como um produto de consumo global e acessível.

O mistério do mecanismo de ação

Por mais de meio século, um fato notável permaneceu sem explicação: ninguém sabia exatamente como a aspirina funcionava no organismo. Ela era amplamente usada, mas seu mecanismo bioquímico era um enigma.

Esse mistério só foi resolvido em 1971, quando o farmacologista britânico John Robert Vane descobriu que a aspirina agia inibindo a produção de prostaglandinas — substâncias responsáveis por processos de dor, febre e inflamação no corpo. A descoberta rendeu a Vane o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1982, compartilhado com Sune Bergström e Bengt Samuelsson, e abriu caminho para o desenvolvimento de toda uma nova classe de medicamentos anti-inflamatórios.

Novos usos no século XX e XXI

A partir da segunda metade do século XX, pesquisadores começaram a identificar propriedades da aspirina que iam muito além do alívio de dores e febres:

  • Efeito antiplaquetário: descobriu-se que doses baixas de aspirina inibem a agregação de plaquetas no sangue, reduzindo o risco de formação de coágulos. Isso levou ao uso amplamente difundido da aspirina em baixa dosagem na prevenção de infartos do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais (AVCs) em pacientes de risco.
  • Pesquisas oncológicas: diversos estudos observacionais e clínicos, desde o final do século XX, têm investigado a associação entre o uso regular de aspirina em baixas doses e a redução do risco de certos tipos de câncer, especialmente o colorretal — um campo de pesquisa que segue ativo e é objeto de debate científico sobre riscos e benefícios.
  • Síndrome de Reye: na década de 1980, associou-se o uso de aspirina em crianças e adolescentes com quadros virais (como catapora e gripe) a um risco aumentado da síndrome de Reye, uma condição rara mas grave. Isso levou a recomendações que restringem o uso do medicamento nessa faixa etária.

A aspirina hoje

Mais de 125 anos após sua síntese, a aspirina continua sendo um dos medicamentos mais estudados, produzidos e consumidos no mundo, estimando-se o consumo de dezenas de bilhões de comprimidos por ano globalmente. Está presente na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e segue sendo objeto de pesquisas científicas ativas, décadas depois de sua criação — um caso raro de fármaco centenário que ainda revela novidades.

A trajetória da aspirina — de um remédio popular extraído da casca de árvores na Antiguidade até uma molécula sintética de precisão farmacêutica — ilustra como a ciência constrói conhecimento sobre bases históricas profundas. Ela também é um símbolo de como a indústria, a geopolítica e a pesquisa científica se entrelaçam na história da medicina: uma simples dor de cabeça tratada por egípcios antigos acabou gerando, séculos depois, um dos maiores marcos da farmacologia moderna.

Este artigo tem fins informativos e não substitui orientação médica. Consulte sempre um profissional de saúde antes de iniciar o uso de qualquer medicamento.

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